Já não se trata de um escândalo. Trata-se de um assalto planetário. Em apenas quatro anos, 44 toneladas de ouro extraídas do subsolo camarônes desapareceram das estatísticas oficiais para reaparecer sob o sol brilhante de Dubai. Enquanto isso, o Estado camaronês, cúmplice ou impotente, registava oficialmente a exportação de apenas 148 quilogramas. Por trás desta enorme discrepância estatística esconde-se um saque organizado, uma espoliação metódica e uma impunidade que desafia toda a lógica.
A revelação é chocante. Ela vem do diretor-geral da Sociedade Nacional de Minas (SONAMINES), convidado do programa Actualités Hebdo da CRTV. Sem rodeios, denunciou aquilo que muitos suspeitavam, mas ninguém ousava confirmar oficialmente: a enorme diferença entre as exportações de ouro declaradas nos Camarões e as quantidades recebidas nos Emirados Árabes Unidos.
Os números são impressionantes: 44 toneladas de ouro contra 148 quilogramas. Ou seja, uma proporção próxima de 300 para 1. Uma diferença desta magnitude não pode ser explicada por erros de registo ou simples falhas de rastreabilidade. Trata-se da assinatura de um sistema paralelo de escoamento da riqueza nacional.
2.000 mil milhões de francos CFA em perdas: o que os Camarões poderiam ter construído
Façamos as contas, simples mas devastadoras. Com o ouro avaliado em cerca de 45 mil milhões de francos CFA por tonelada, as 44 toneladas desaparecidas representam um valor de mercado de aproximadamente 2.000 mil milhões de francos CFA.
Dois biliões.
Com esta quantia, os Camarões poderiam ter:
- Construído centenas de hospitais de referência em todas as regiões,
- Pavimentado toda a rede de estradas secundárias e terciárias,
- Financiado o ensino gratuito e completo até ao ensino secundário,
- Garantido água potável e eletricidade a cada centro administrativo.
Mas não. Esta fortuna colossal acabou nas cofres das zonas francas de Dubai, em contas offshore em paraísos fiscais e no estilo de vida luxuoso de um pequeno grupo de intervenientes sem escrúpulos.
Enquanto isso, nas regiões auríferas do leste dos Camarões, os mineiros artesanais lutam para alimentar as suas famílias. O seu ouro não lhes beneficia — beneficia outros.
As máscaras caem: altos dignitários e barões do sistema sob suspeita
A grande força deste caso é que o anonimato já não existe. Por trás do mecanismo de escoamento do ouro para Dubai começam a surgir nomes — nomes raramente pronunciados nos meios de comunicação nacionais, protegidos por redes de clientelismo estatal.
Segundo fontes concordantes, vários altos dignitários do regime estão entre os beneficiários ou facilitadores deste sistema opaco. Ao lado deles, figuras influentes e empresários com ligações internacionais.
O mecanismo é conhecido: o ouro é extraído de forma artesanal ou semi-industrial no leste do país, por vezes em condições próximas do trabalho forçado. Passa por centros de compra privados, muitas vezes com recibos de declaração de compra. Mas, uma vez atravessada a fronteira, as declarações são reduzidas, as quantidades diminuem e a rastreabilidade desaparece.
À chegada a Dubai, centro mundial do comércio de ouro, a mercadoria é recebida na totalidade. Ninguém questiona a sua origem real.
Falsificação de declarações aduaneiras: um crime económico em massa
O que a SONAMINES revela é a existência de uma dupla contabilidade nacional do ouro. Uma oficial, destinada às organizações internacionais e aos cidadãos camaroneses: 148 quilogramas exportados em quatro anos. E outra real, que circula em circuitos paralelos: 44 toneladas.
Isto significa que, durante quatro anos, todos os dias, camiões, veículos todo-o-terreno ou particulares atravessaram postos fronteiriços com ouro não declarado ou subdeclarado de forma fraudulenta. Terão os funcionários aduaneiros fechado os olhos? Terão sido subornados? Terão recebido ordens superiores? São perguntas que exigem respostas.
O diretor-geral da SONAMINES teve a coragem de expor o problema. Resta saber se a hierarquia, até ao mais alto nível do Estado, terá a vontade de o resolver.
Saquear o leste para enriquecer uma minoria intocável
Por trás dos números e dos mecanismos existe uma realidade humana dura. As comunidades do leste dos Camarões vivem sobre um Eldorado que nunca veem. O ouro camaronês não beneficia os camaroneses.
Ele serve para comprar apartamentos em Dubai, contas na Suíça, carros de luxo em Beirute ou Paris. Alimenta um sistema global de branqueamento de capitais no qual os países africanos produtores são sistematicamente espoliados.
Não se trata de um simples desvio de fundos. Trata-se do saque industrial de uma nação inteira. E esse saque tem rostos, nomes e cargos. É tempo de a justiça os identificar e levá-los a julgamento.
Apelo à mobilização cívica e à justiça
Os camaroneses têm o direito de saber. Têm o direito de conhecer os nomes de quem organizou este roubo de 2.000 mil milhões de francos CFA. Têm o direito de exigir a limpeza das alfândegas, dos serviços fiscais e das instituições públicas de elementos corruptos.
A SONAMINES cumpriu o seu dever ao alertar. Agora cabe ao Parlamento, à Inspeção-Geral do Estado e à Presidência da República reagir. Deve ser criada com urgência uma comissão de investigação independente. As alfândegas e os centros de compra de ouro devem ser colocados sob controlo internacional.
E se o sistema proteger os seus barões, então o povo camaronês, através dos seus representantes, da sociedade civil e da imprensa livre, terá de trazer a luz a estas trevas.
O ouro dos Camarões deve beneficiar os camaroneses — não cofres em paraísos fiscais, não ministros corruptos, não generais oportunistas, não empresários sem escrúpulos.
2.000 mil milhões de francos CFA. Esse é o preço do silêncio. E também a medida de uma raiva que cresce. Que os predadores saibam: um povo saqueado acaba sempre por se erguer.

